terça-feira, 23 de agosto de 2011

Poema gauchesco de Ialmar Pio Tressino Schneider - Nascimento de Ramiro Barcelos em 23.8.1851 - Imagem: capa do livro em minha biblioteca.



Após ler Antônio Chimango de Amaro Juvenal (Ramiro Barcelos).




Ialmar Pio Schneider

1

Disse Amaro Juvenal,

e aqui fala Tio Simplício,

pra que algum outro patrício

cantasse n´algum fandango,

“o mais que fez o Chimango”,

e eu me proponho a este ofício.

2

E, para tal, a cordeona

já vou sacando da mala,

atiro pra trás o pala

e me sento neste banco,

também pra lhes ser bem franco,

mando que limpem a sala.

3

E depois de tudo aquilo

que o Chimango fez na estância,

ainda teve a arrogância

de intitular-se buenacho,

mas sabemos que o muchacho

já foi maula desde a infância.

4

E tudo o que era bom

para ele não prestava,

proibiu o jogo de tava

e também o de baralho,

exigia muito trabalho,

quanto a ele, só mandava !

5

Pois assim desta maneira

muita coisa transcorria,

se cumprindo a profecia

que a cigana lhe fizera,

rancho virando tapera

e no campo pouca cria...

6

No seu desmando total,

sem compreender mais ninguém,

se dizia gente bem,

pois para trás não olhava,

sabendo que em Caçapava

sempre foi um joão-ninguém.

7

E tendo as rédeas na mão,

não precisava de esmolas,

mandou fechar as escolas

em tudo que foi vivenda,

pra que ninguém mais aprenda

e venha pisar-lhe a cola.

8

Com seu rebenque de couro

era sempre o manda-chuva,

não ajudava nem viúva

que inda chorava o finado,

e por ser do seu agrado

só mandava plantar uva.

9

E quando sentava à mesa,

primeiro pedia o vinho,

embora nunca sozinho,

sempre andava prevenido,

pois isto tinha aprendido

nos tempos do seu padrinho.

10

Mandou esparramar o gado

que se adentrou pelos matos,

coberto de carrapatos,

de bernes e de bicheiras;

nesta sequencia de asneiras

iam se passando os fatos.

11

E a tropa magra berrava

na coxilha e na canhada,

a velha estância arruinada

não tinha mais salvação,

tudo caindo pra o chão,

tudo virando em nada.

12

Não se carneava mais,

pois adeus carne no espeto

e no fogo de graveto,

crepitando no galpão

sapecava-se pinhão,

cozinhava-se feijão preto...

13

E no verão a canjica,

no inverno a batata-doce,

tudo isso o tempo trouxe

para a Estância de São Pedro

e todos levavam medo

que pra sempre assim fosse.

14

Era tudo racionado,

não se comia “a la farta”,

desta forma a sina aparta

o tempo que se passou bem,

a miséria sobrevém

e se come até lagarta.

15

Os velhos tauras sentados

ao derredor do fogão,

tomavam o chimarrão

com erva caúna, amarguenta,

enferrujava a ferramenta,

não se afiava facão.

16

Abandonado, ao relento,

lá fora estava o rebolo,

até o próprio monjolo

não batia noite e dia;

a peonada sofria,

pitando um pobre crioulo.

17

Não se domava mais potros

com firmeza e precisão,

era tudo redomão,

pra não dizer aporreado

e por todo o descampado

aquela desolação.

18

No campo o pasto está raro

em meio a caraguatás;

sem aprender, os piás

iam cruzando a existência,

tendo apenas por experiência

aquilo que vida traz.

19

Nos bolichos de campanha

somente havia cachaça,

sinuelo da desgraça

que conduz qualquer gaudério

aos bretes do cemintério

onde se entrega a carcaça...

20

O minuano mais brabo

trazia seu frio de morte,

a estância na pobre sorte

em que se encontrava, aflita,

não havia china bonita

que o nosso viver conforte.

21

O velho pago de outrora

se transformou num repente

naquilo que o guasca sente

quando tudo se transforma,

obedecer era a norma,

ficar quieto, prudente !

22

Ninguém se manifestava

neste estado de cousas,

somente as pobres esposas

iam parindo seus filhos,

as éguas os seus potrilhos,

e as viúvas chorando em lousas.

23

Não se tinha mais notícia

do que acontecia no mundo,

na macega o vagabundo

procurava um agasalho,

pois fugindo do trabalho

se embrenhava nestes fundos.

24

A velha estância sofria

o que nunca tinha passado,

e quem fora bem mandado

hoje de nada valia,

quando tinham melancia,

o mogango era guardado.

***
Canoas - RS, 1972 - na Rua da FAB próximo ao Rancho do Pára Pedro, do saudoso José Mendes, onde o autor conheceu e conviveu com muitos tradicionalistas.

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